Por Cristiane Segatto
Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo
Quatro em cada dez americanos recorrem a algum tipo de terapia alternativa para cuidar da saúde. Um dos recursos mais procurados são os fitoterápicos, em forma de cápsulas ou chás. A informação faz parte de uma pesquisa divulgada pelo Centro Nacional de Medicina Complementar e Alternativa (NCCAM). Esse é um órgão do governo americano que pretende regulamentar o setor e submeter as terapias a estudos científicos.
É um esforço para lançar luzes numa área cheia de crenças infundadas. E também para comprovar e reconhecer os benefícios de práticas tradicionais que podem melhorar a qualidade de vida da população. Vinte e oito prestigiadas universidades, como Harvard, Columbia e Duke, participam dessa iniciativa.
Até recentemente, o casamento entre os tratamentos convencionais e as terapias alternativas parecia impossível. Havia radicais dos dois lados. O que se vê hoje nos Estados Unidos é uma tentativa de harmonizar as duas áreas. Esse esforço deu origem a um novo campo que tem sido chamado de medicina integrativa.
Há um movimento semelhante no Brasil - ainda que menos organizado. Não se sabe, por exemplo, quantos brasileiros consomem chazinhos e outras formas de fitoterapia ao mesmo tempo em que se tratam com medicamentos alopáticos. Não estranharia se uma pesquisa demonstrasse que mais da metade da população faz isso.
Temos no Brasil o costume de achar que tudo o que é natural é necessariamente benéfico. Sobre o hábito de tomar chazinhos da vovó para enfrentar os mais diversos incômodos, há um ditado bastante conhecido: “Se não fizer bem, mal não faz”. Essa ideia está arraigada na cultura nacional, mas é totalmente equivocada.
“É um erro pensar dessa forma. A natureza tem venenos poderosos”, diz o pesquisador João Ernesto de Carvalho, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele é especialista em Farmacologia e Toxicologia.
Carvalho faz um importante alerta: “Quase 100% das escolas médicas não tem a disciplina de fitoterapia”, diz. “Os médicos desconhecem as plantas medicinais e como elas podem interferir na ação dos remédios que eles receitam”, afirma.
Esse é um grande problema. As plantas medicinais interferem na forma como os remédios convencionais agem no organismo. Podem inibir ou exacerbar a ação deles. Alteram o metabolismo dos medicamentos. Eles podem perder a eficácia ou se acumular no organismo.
Nem os médicos, nem os pacientes se dão conta disso. Quem toma uns chazinhos ou umas cápsulas naturais não conta ao médico. Acha que a informação é irrelevante ou teme ser ridicularizado.
Precisamos aprender que essa informação pode fazer toda diferença. Alguns exemplos de interações perigosas entre ervas e remédios:
* A pata-de-vaca (Bauhinia forticata) é uma planta popularmente usada contra o diabetes. O chá dessa erva pode causar hipoglicemia no diabético. Sem saber que esse efeito é provocado pelo chá, o médico pode achar que é necessário reduzir a dose dos remédios. Se isso for feito e a pessoa parar de tomar o chá, os níveis de açúcar no sangue podem subir. “Essa oscilação pode trazer sérios danos ao tratamento e à saúde do paciente”, diz Carvalho.
* Cápsulas de alho (Allium sativum) têm efeito antihipertensivo, antitrombótico e antioxidante. São usadas para prevenir doenças cardiovasculares. Mas não devem ser consumidas por pessoas que tomam anticoagulantes orais e aspirina. Uma outra interação muito perigosa: cápsulas de alho podem reduzir a atividade dos antivirais usados no tratamento da aids.
* A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) costuma ser usada para ajudar a combater a depressão. Muitos pacientes de aids que sofrem de depressão costumam tomar chás dessa erva. Mas atenção: ela também reduz a concentração das drogas anti-HIV no sangue. O tratamento perde eficácia. É ou não é um assunto sério?
* O chá verde (Camellia sinensis) é usado como antioxidante e para ajudar a reduzir os níveis de colesterol. Mas não deve ser usado junto com drogas vasodilatadoras coronarianas ou com a teofilina, um broncodilatador pulmonar.
* O gengibre (Zingiber officinale) ajuda a reduzir náuseas e cólicas. Também estimula a circulação e a digestão. Mas pode provocar fortes reações gástricas. Também não deve ser usado junto com remédios anticoagulantes.
* O suco da toranja (Citrus x paradisi), também chamada de grapefruit, contém uma substância que inibe o metabolismo de remédios contra a hipertensão. Quem tem o costume de tomar esse suco frequentemente (o que é comum nos Estados Unidos) corre o risco de sofrer uma crise de hipertensão. E, provavelmente, vai culpar os remédios pela falha.
Esses são exemplos de algumas interações comprovadas pela ciência. Pode ser que existam muitas outras. O desconhecimento é geral. Carvalho acredita que a situação pode se agravar nos próximos meses. Em 2010, o Ministério da Saúde pretende lançar a Relação Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (Renafito). A ideia é estimular o uso desses produtos no SUS.
“Se a população e os médicos não forem muito bem orientados sobre o uso desses recursos naturais, é possível que muita gente venha a enfrentar problemas”, afirma Carvalho.
O Ministério da Saúde divulgou uma lista de 71 plantas que considera útil no tratamento de doenças. Agora está na fase de recolher evidências científicas da segurança e da eficácia dessas plantas. A divulgação da lista definitiva está prevista para julho.
“Vamos oferecer um curso aos médicos do SUS para que eles saibam quando e como adotar plantas e fitoterápicos”, diz Katia Torres, consultora do departamento de assistência farmacêutica e insumos estratégicos do Ministério da Saúde.
Os brasileiros - médicos e pacientes - precisam passar por uma mudança cultural, aprender a encarar as ervas de uma outra forma. Não devemos negar o valor dos recursos naturais nem desprezar o conhecimento tradicional dos indígenas e de outros grupos que nos ensinaram a combater tantos males. Precisamos, porém, reconhecer que o que é natural também pode fazer mal.
Até a Segunda Guerra Mundial, a maioria dos remédios era derivada de substâncias encontradas na natureza. Com o surgimento da síntese química, a forma como lidamos com os remédios mudou. É mais fácil observar e comprovar os efeitos colaterais dos medicamentos criados em laboratório. “Foi daí que surgiu a ideia de que os remédios sintéticos são uma coisa perigosa, cheia de efeitos indesejados”, diz Carvalho.
Esses efeitos colaterais existem e são muitos. Mas as plantas não são necessariamente inocentes ou inócuas. Elas também podem produzir graves efeitos indesejados. A diferença é que eles são desconhecidos ou desprezados. Posso dar um conselho? Se você é adepto do chazinho ou das cápsulas naturais não esconda esse fato de seu médico. Ele é muito relevante.
Você se trata com produtos naturais? Usa esses recursos junto com remédios convencionais? Queremos ouvir a sua opinião.
(Cristiane Segatto escreve aos sábados.)
Comentários
Efeitos colaterais
Sou farmacêutica, dedicada à fitoterapia, embora durante poucos períodos tenha trabalhado diretamente na área, pois poucos são os governantes que encaram a fitoterapia como uma forma séria de tratar as pessoas. Mas sempre tive a preocupação de informar às pessoas que mais de 90% do arsenal terapêutico industrializado tem origem nas plantas medicinais. E embora elas, em seu conjunto de substâncias sejam menos agressivas do que muitas de suas substâncias isoladas, tb são capazes de provocar alergias, ter efeitos colaterais e provocar reações adversas, como qualquer outro medicamento. Além de não termos solução para tudo com os fitoterápicos. Portanto devemos usá-los com sabedoria, como nossas avós e não como fazem hoje, indiscriminadamente, sem conhecimento e sem base. Não podemos esquecer de citar o saudoso farmacêutico cearense Prof. José de Abreu Mattos que abriu caminho, com suas Farmácias Vivas, aliando sabedoria popular e pesquisa científica. As Farmácias Vivas, no Ceará, atendem milhares de pessoas por ano, com algumas plantas in natura e com medicamentos manipulados à base de plantas medicinais. Se o governo quisesse, teríamos a fitoterapia em cada cidade brasileira, tratando milhares de pessoas a baixo custo e com menor risco.
É melhor chá do que remédio
Faço uso constante de chás para dormir e acho que é melhor utilizar recursos naturais do que encher o organismo de quimica. Como tudo nesta vida, nada deve ser feito (ou no caso tomado) em excesso, mas tomar uma xicara de chá por dia não deve fazer tanto mal como a reportagem diz. Afinal, existem culturas como a inglesa e chinesa aonde o chá é tomado diariamente e continuamente e eles nunca tiveram problemas quanto a isso.
Plantas que Curam e que Matam
Torna-se fundamental para o brasileiro saber, os efeitos que as plantas utilizadas para chás podem causar, sendo consumidas com ou sem remédios. Por exemplo quem sofre de hipertensão não deve beber chá de hortelã, por que este é estimulante da circulação. A reeducação da população na fitoterapia é fundamental, ou seja, a venda em supermercados destas plantas tem que ser revista, é frequente encontrarmos embalagens que indicam as propriedades das plantas, algumas misturas como o chá de trinta ervas chegam a ser "milagrosas" no combate de enfermidades. Não há como saber o que é planta e o que é mato em um pacote deste. Somente estudando e reconhecendo os esfeitos tanto benéficos e colaterais das dosagens que muitas vezes chega a intoxicar a pessoa podem trazer à nossa saúde. As pesquisas feitas pela população devem ser sérias, procurando livros que tratam do assunto, procurar as fontes destes livros e conhecer nossa flora que é imensa, enfim tornar-mos aspirantes à químicos, mas sem receitar esta ou aquela planta para o nosso vizinho por que isto é perigoso.
Este material me foi enviado pela amiga Isabel, a quem agradeço o alerta.